Entrega de Valor Viável

Comecei a delinear a Engenharia da Viabilidade a partir de um conceito central: a Entrega de Valor Viável. Na época, eu rascunhava as primeiras versões da Matriz da Liderança Técnica.

Meu ponto de partida foi um profundo incômodo com o “Agile de fachada”. Esse desconforto não era meramente pessoal; era um padrão que eu capturava consistentemente em mentorias e mesas de liderança.

Percebi uma produtividade performática, movida a cards, rituais vazios e processos burocráticos que mascaram a realidade.

Aprofundando meus estudos, cheguei a uma conclusão incômoda: o Agile “moderno” muitas vezes se sustenta na própria inviabilidade. É um ciclo vicioso onde cada final de sprint é um espasmo de sobrevivência: “na próxima a gente acerta”.

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Quando o timeframe rígido de duas semanas não comporta o contexto, o transbordo torna-se a regra. Revisamos fluxos, refinamos a escrita dos cards, mas raramente temos a coragem (ou a permissão) de questionar a estrutura do ciclo ou o prazo arbitrário (quase religioso).

O resultado é um paradoxo perigoso: a feature é entregue e o card é fechado, mas o sistema se degrada. O prazo era inviável. A sustentabilidade foi ignorada. O que sobra é um novo card de “melhoria” ou, mais frequentemente, e até pior, um bug.

Neste cenário, enfrentamos dois pontos cegos críticos:

  • A Rotulação Genérica de “Bugs”: Ao chamar tudo de bug, deixamos de mapear o retrabalho gerado por decisões de risco não calculadas. Tratamos o sintoma, mas ignoramos a falha na viabilidade da decisão original.
  • O Silêncio da Liderança Técnica: A voz técnica perdeu espaço. O Débito Técnico perdeu o senso de urgência. E, honestamente, parte da culpa é nossa. Ao buscarmos a “arquitetura perfeita” ou o “Desenvolvimento Orientado a Currículo” sem fundamentação no negócio, perdemos credibilidade.

Contudo, o paradoxo permanece: apenas profissionais capacitados podem estabelecer critérios reais de qualidade. Apenas especialistas conseguem mapear os limites de um sistema sócio-tecnológico. Mesmo com Inteligência Artificial, é necessário mapear os limites humanos e o contexto organizacional.

Precisamos, urgentemente, retomar a viabilidade. A pressão por agilidade real imposta pela IA nos forçará a encarar esse abismo. Não basta mais falar de Entrega de Valor; precisamos garantir que esse valor seja, acima de tudo, viável e sustentável.


Nota: eu desisti do termo quando entendi que a tradução para o Inglês não seria tão forte quando no Brasil, já que aqui “Entrega de Valor” é um jargão do setor. Isso me levou ao termo Engenharia da Viabilidade como aplico hoje.

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