Excesso de qualidade vira margem pra concorrência (O Ponto de Convergência)

A frase que dá título a este artigo é o axioma que utilizo para fundamentar o Ponto de Convergência na minha Matriz de Liderança Técnica.

Diferente da maioria das matrizes 2×2, onde o quadrante superior (seja à direita ou à esquerda) costuma representar o estado ideal, a minha proposta aponta para um alvo distinto. O topo dessas matrizes tradicionais é o que chamamos de Utopia: o nível máximo de qualidade possível, mas que carrega consigo o maior custo e o maior time-to-market.

Na realidade dos negócios, o mercado raramente permite essa busca utópica. Mesmo as deep techs — empresas de alta tecnologia fundamentadas em pesquisa acadêmica — precisam reduzir expectativas de qualidade em prol da viabilidade comercial ao lançar um produto.

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Imagine se a OpenAI tivesse esperado o tempo de resposta “perfeito” para lançar o ChatGPT. Ela certamente teria perdido a janela de oportunidade do momento pós-pandemia. Departamentos de P&D (Pesquisa e Desenvolvimento), que também ocupam o primeiro quadrante da Matriz, só geram produtos de fato quando suas pesquisas encontram o equilíbrio entre custo e tempo. Até lá, são apenas investimentos de longo prazo.

Em mercados competitivos, o desperdício de tempo em busca de uma qualidade que não gera percepção de valor para o cliente final é fatal. Um exemplo comum: um time de desenvolvimento que decide refatorar completamente um sistema legado apenas por não gostar da stack tecnológica atual.

Enquanto esse time consome recursos e tempo nessa reestruturação interna, a concorrência pode estar investindo o mesmo esforço em novas funcionalidades ou na redução de custos que serão repassados ao consumidor. Em suma: os concorrentes tornam-se mais competitivos justamente por causa do excesso de “zelo técnico” do outro lado.

Não se trata de dizer que sistemas nunca devam ser refatorados ou recriados. Contudo, a motivação e o custo dessa decisão precisam ser rigorosamente fundamentados no negócio.

O Ponto de Convergência materializa a união entre eficiência e eficácia. Ao atingi-lo, entregamos o que garante a viabilidade do negócio (eficácia) com o menor consumo de recursos possível (eficiência).

Com a ascensão da geração de código via Inteligência Artificial, o ajuste fino da viabilidade será ainda mais crucial. Abaixo desse ponto, o negócio não prospera por falta de qualidade; acima dele, você entrega o mercado de bandeja para um concorrente que soube ser mais rápido e mais barato.

Nota do Autor

Na concepção original da Matriz de Liderança Técnica, a produção de código via Inteligência Artificial ainda não havia atingido a escala e o impacto que observamos hoje. Atualmente, busco entender sob quais circunstâncias o Q2 (quadrante superior esquerdo) pode se tornar o habitat ideal para times focados na orquestração de IA, partindo do princípio de que as camadas de Intenção e Design estejam devidamente consolidadas e operantes.

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